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Em parceria com a Visa e com a Copa90, a maior entidade futebolística independente em termos de comunicação, a Crónica Futebolística partilha a melhor experiência da Taça das Confederações Visa #RussianYou.

O vídeo que pode ver acima mostra algumas das aventuras de quatro adeptos russos que se comprometeram a apoiar Portugal, México, Chile e Alemanha na Taça das Confederações, com a missão de mostrar o ambiente vivido na competição aos adeptos que não conseguiram marcar presença na mesma.

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     Não é incomum, hoje em dia, caracterizar muitos clubes, nacionais ou internacionais, como apenas mais um. Um conjunto de jogadores com um treinador, equipa técnica e os seus adeptos, sem que muito se saiba sobre as próprias ideias do clube ou sobre a relação que os seus jogadores têm, dentro ou fora de campo. Numa altura em que redes sociais acabam por ter uma grande influência na promoção dos clubes, dos seus atletas e das suas próprias ideias institucionais, existem equipas que acabam por beneficiar mais desse facto do que outras. O cenário ideal acaba por ser quando um clube faz questão de mostrar o companheirismo e espírito de grupo dos atletas dentro de campo, sendo que os mesmos encarregam-se de o fazer fora do campo. Eis, portanto, o Rio Ave Futebol Clube.

     Cada vez mais respeitável dentro e fora de campo, como instituição, o Rio Ave tem caminhado a passos largos para ser uma das grandes potências do futebol nacional, atrás dos 3 grandes que muitas vezes acabam por ter o seu estatuto no pódio, com maior ou menor dificuldade, garantido. Naquela que foi a época mais interessante da sua carreira em Portugal, Nuno Espírito Santo carimbou o acesso da formação de Vila Conde às eliminatórias de acesso à Liga Europa, que com Pedro Martins ia mesmo chegar à fase de grupos. Se até esse momento o Rio Ave prometia muito, esse momento - o histórico golo de Esmael Gonçalves frente ao Elfsborg - elevou o clube para um patamar ainda maior. A verdade é que mesmo a escolha do novo treinador, Pedro Martins, acabou por ser extremamente coerente, fiel às ideias do clube e dos próprios jogadores, a dum futebol sólido, de propensão ofensiva, sem medo de expressão individual. 

Sabemos todos que, a meio duma temporada, é sempre difícil solicitar os serviços de um treinador após a rescisão de outro. Isto é, de um treinador que vá de acordo às ideias do clube. E foi o que aconteceu aquando da saída de Nuno Capucho do clube rio-avista: em pleno mês de novembro, com a época a decorrer, a turma de Vila do Conde 'caprichou' na sua escolha e contratou Luís Castro, veterano técnico português que acabou por deixar um legado difícil de superar no Porto B. Com 55 anos, Luís Castro não se mostrou - e nunca o foi - o típico treinador de "velha guarda", com um discurso monótono e repetitivo. O técnico de Vila Real acabou por ser uma agradável surpresa para quem não acompanhasse com tanta atenção o seu trabalho na Segunda Liga, apresentando um discurso fresco para os verdadeiros amantes do futebol, sem medo de refletir sobre o seu modelo de jogo, ideias ou prestação da sua equipa de forma mais detalhada. Que bonito foi assistir às conferências de imprensa e flash do treinador durante 6 meses.

     Algo que indubitavelmente acaba por ajudar a estas fortes ideias e a esta evolução que o clube tem tido no futebol português nos últimos anos deve-se à forte união entre os próprios jogadores e com as pessoas que os rodeiam dentro do clube. Dentro do Rio Ave está patente a ideia de que todos têm o seu papel e que toda a gente tem o seu grau de responsabilidade, igualmente importante, no sucesso do clube. Num clube onde cada jogador vai para o seu canto, finalizados os treinos e os jogos, claro que o grau de companheirismo e amizade não será o mesmo. Duma maneira ou de outra, isso terá a sua influência dentro de campo. É muito mais fácil jogar ao lado de alguém em que se confia e de quem se tem um conhecimento amplo. Porque, não se enganem, no futebol não são só os pés que interessam. E a união no balneário do Rio Ave não é recente, ganhando maior destaque mediático desde os tempos em que Ukra, além de grande líder dentro de campo, colocava todo o balneário a rir compulsivamente com as suas características brincadeiras. E isso é tudo importante, como está presente nas próprias redes sociais dos jogadores: os jantares, as viagens, os dias de folga e as churrascadas. Tudo isso contribui para o bem-estar dentro do balneário, que tem uma óbvia influência para aquilo que se passará dentro do relvado. No balneário do Rio Ave, mais do que colegas ou amigos, está um grupo de irmãos.

     Claro que todo o convívio e mais algum é fantástico, mas como em tudo na vida existem alturas para brincar e outras para encarar as coisas de forma frontal e séria. É para isso que todos os clubes têm um capitão, aquele que tenta liderar a equipa emocionalmente dentro de campo. E a verdade é que o Rio Ave dispõe do capitão mais instruído de todo o campeonato, um verdadeiro senhor jogador que conta com interessantíssimos projetos fora de campo. Claro, não podia ser outro que não Tarantini. Prestes a cumprir uma década no Rio Ave, Ricardo Monteiro, nome pelo qual poucos o reconheceriam, é um indiscutível na formação de Vila do Conde não só pela qualidade que oferece com os pés ou a inteligência que dispõe dentro de campo, mas também pela sua autoridade e capacidade de liderança, ele que reúne as capacidades de um verdadeiro capitão.

     Tarantini obteve o grau de mestre pela Universidade da Beira Interior em 2014, acabando o curso com 18 valores, defendendo a sua tese em Ciências do Desporto. Já com perto de 35 mil minutos jogados na sua carreira profissional, o médio de 33 anos tem o seu próprio site e projeto, onde se mostra defensor da possibilidade de conciliar a formação académica e o futebol profissional, algo que na sua opinião falta às mais recentes gerações que abandonam os estudos prematuramente em busca duma carreira de sonho que pode ou não acontecer. E se a própria sinopse da causa não lhe chama a atenção, Tarantini expõe dados impressionantes na página da sua causa, onde cita estudos que referem que a grande parte dos jogadores profissionais passam por sérias dificuldades num máximo de 5 anos após a sua retirada, o que acaba por ter consequências a nível pessoal. Tarantini reforça de forma séria a ideia de que, além de ser possível conciliar os estudos com o futebol, acaba por ser algo necessário porque o futebol - como jogador, claro - acaba por uma profissão a tempo inteiro, no máximo, até aos 35-40 anos. E a partir daí, o que fazer? Essa é a causa de Tarantini, que defende que tem de haver um planeamento coerente, a longo prazo, para a vida depois do futebol.

     A verdade é que grande parte desta união visível no grupo de trabalho do Rio Ave só é possível através da grande capitalização das redes sociais do clube, muito por culpa do seu diretor de comunicação, Marco Carvalho, que nos dá uma perspetiva - quase em tempo real, por vezes - do que se vai passando no clube de Vila do Conde, desde treinos a iniciativas relacionadas com a comunidade envolvente. É necessário, hoje mais do que nunca, que as redes sociais dos clubes acabem por atualizar de forma decente os próprios adeptos e seguidores do clube, mostrando também o lado mais humano dos atletas - porque eles também o são -, algo que muitas vezes a imprensa acaba por ignorar ou não dar, de todo, a importância devida. Nos dias de hoje, com as tecnologias existentes, é um pecado não conseguir ou não querer estabelecer uma relação, muitas vezes direta, entre jogadores e adeptos. E bem que o futebol necessita disso.

     Longe de ser apenas mais um clube, o Rio Ave tem aberto muitos olhos no futebol português durante as últimas temporadas, conciliando uma grande qualidade futebolística com um grupo de jogadores extremamente unido, criando uma harmonia perfeita e condições favoráveis para que a instituição acabe por ser bem sucedida nas várias frentes em que compete. Resta esperar que o próximo treinador dos verdes e brancos dê continuidade ao trabalho dos seus antecessores, que motivação neste balneário de irmãos, certamente, não faltará. O Rio Ave continuará a trabalhar de acordo com aquela que é uma das suas maiores virtudes: a sua identidade.

LUÍS BARREIRA, CRÓNICA FUTEBOLÍSTICA
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     Sérgio Conceição já deixou o comando técnico do Nantes, clube pelo qual assinou no passado mês de dezembro e acabou por fazer o impensável: deixar um clube que se encontrava na zona de despromoção, sem grandes esperanças de garantir a permanência no campeonato francês - e quanto mais de fazer um campeonato tranquilo -, no 7º lugar da competição. Caso houvessem 7 vagas europeias na Ligue1, ao contrário das 6 existentes, seria o Nantes de Conceição a rumar à Liga Europa. E em tal recuperação não existem características a fazer: com a sua personalidade naturalmente agressiva, mais ou menos controlada, o técnico português tornou-se num dos grandes focos de atenção numa altura em que se vai fazendo a revista da época no futebol francês.

     Conceição, próximo treinador do FC Porto, terminou a sua estadia de 7 meses em território gaulês com incríveis créditos, fruto do seu rácio de vitórias de 50%. Melhor só em 13/14, quando terminou a época em Braga com 23 vitórias em 44 jogos, terminando no 4º lugar do campeonato. Já a sua temporada, embora bem sucedida, ficaria manchada pela derrota no Jamor, face a um Sporting que, a jogar com 10 durante 75 minutos e em desvantagem no resultado (e por margem de 2 golos) até aos minutos finais, onde a dupla de Slimani e Montero obrigou com que a questão se resolvesse nas grandes penalidades, favoráveis aos lisboetas. 

     Isto para dizer, no fundo, que Sérgio Conceição é um técnico que já revelou bons registos na sua ainda relativamente curta carreira como treinador. O problema é que, entre Braga e Nantes, foi protagonista de uma das piores épocas do Vitória SC desde a virada do milénio.

     É importante relembrar que o Porto não vence um título oficial de 2013, na altura a Supertaça Cândido de Oliveira com Paulo Fonseca ao leme. Desde esse momento, 3 treinadores foram apresentados - com Luís Castro e Rui Barros a sentarem-se no Dragão como interinos - por Jorge Nuno Pinto da Costa como os homens que iriam devolver a formação azul e branca aos títulos, algo que tem marcado a história recente da equipa nortenha: 29 só no novo milénio. E todos eles conquistados, claro está, até 2013. Tendo isto em conta, é óbvio que o Porto vive numa seca de troféus que não é natural, muito mais quando tem um sido um autêntico 'papa troféus', especialmente na primeira década deste século, onde se incluem 2 troféus europeus, ambos com José Mourinho.

     É compreensível que, dado este período menos bom na história do clube, o Porto queira tomar uma opção mais segura no que toca ao homem do leme, até porque o último técnico estrangeiro não correspondeu. Esse foi o critério para a escolha de Nuno Espírito Santo, uma desilusão para os portistas em diversos níveis. E, tal como seu antecessor, Sérgio Conceição ainda não mostrou credenciais suficientes no futebol português ou fora dele - uma época fantástica em França não exclui a possibilidade de ser um one hit wonder. A Crónica Futebolística enumera algumas razões pelas quais Sérgio Conceição não é a escolha mais indicada para voltar a levar o Futebol Clube ao Porto à rota dos títulos.

     ➤ OS ÓBVIOS PROBLEMAS TEMPERAMENTAIS: É um problema recorrente no futebol hoje em dia. É sempre uma característica bem-vinda que um treinador sinta o clube que está a liderar, ainda para mais quando é um homem formado ou que tenha sido bem sucedido como jogador na casa para a qual está a voltar. O confronto faz-se, aqui, quando quem quer que seja tenta desculpar atitudes claramente agressivas ou descabidas como simplesmente uma demonstração de 'raça'. E, já como jogador e agora como treinador, Sérgio Conceição não pode ser uma imagem exemplar a passar aos seus jogadores. Já enquanto atleta, o próximo treinador do FC Porto demonstrava uma postura excessivamente agressiva, o que sempre abonava a seu favor no campo da disciplina. Enquanto treinador, o seu historial é ainda mais extenso. Desde acusações de insultos e ameaças perante António Salvador, José Eduardo Simões e outros dirigentes a ameaçar e a 'marcar presença' contra árbitros, até na sua extremamente positiva época no Nantes. Por mais que um treinador se necessite dedicado, esforçado para com a causa da instituição que representa, os problemas temperamentais e crises de fúria de Conceição não são exemplo a seguir e não é aquilo que necessita os jogadores do Porto.

     ➤ NECESSÁRIA MAIOR EXPERIÊNCIA: Está um pouco demais instaurada no futebol atual a ideia de que um jogador mediano dará um treinador mediano ou que um grande jogador dará um grande treinador. Não. Claro que passar pelos relvados dará a um futuro treinador uma melhor ideia de como fazer o seu trabalho, mas isso não é de todo determinante para se ter sucesso no banco. E Sérgio Conceição pertence a uma nova vaga de treinadores portugueses que optaram por seguir o ramo de treinador, uns com mais sucesso e outros com menos. A verdade é que Sérgio Conceição, exclusivamente como treinador, não tem a experiência suficiente para tirar um clube como o FC Porto da situação em que se encontra atualmente. Apesar de boas temporadas no Nantes e no Braga, assim como na Académica a certo nível, o português de 42 anos ainda não mostrou, de todo, a consistência necessária para se mostrar capaz de liderar um barco como o do Porto, que vive um momento extremamente sensível. Juntando essa falta de consistência - que até pode estar lá, mas que ainda não a mostrou - à sua própria inconsistência emocional, é bem válida a hipótese de que estejam reunidas as condições para mais uma época de dissabor para os azuis e brancos.

     ➤ NECESSIDADE DE MUDAR O CRITÉRIO DE SELEÇÃO: Nuno Espírito Santo apresenta vários paralelos com Sérgio Conceição: apesar de uma época extremamente interessante no Rio Ave, onde chegou à final das taças, e de um excelente início no Valência, o agora treinador do Wolverhampton não apresentava nem de perto, nem de longe condições favoráveis nem conhecimento no seu currículo para que lhe fosse oferecido o cargo de treinador do FC Porto que, à entrada da época passada, também já vivia um momento sensível. Conceição, por sua vez, também não apresenta um currículo de todo cimentado. A conclusão possível de tirar é que o critério de seleção para as escolhas de Espírito Santo e Conceição são semelhantes. Se a história recente se mantiver, é algo que não abona a favor dos dragões. Porque além de serem escolhas claramente precipitadas, mostram ser técnicos que não têm fulgor suficiente - ainda - para segurar uma equipa com as ambições domésticas do FC Porto.

     ➤ ESCOLHAS MAIS FIDEDIGNAS NO PRÓPRIO CAMPEONATO: Nas 7 épocas em que já treinou na Primeira Liga, Pedro Martins já levou o Marítimo, Rio Ave e agora Vitória SC às competições europeias. Com um currículo cimentado aos poucos, subindo um degrau de cada vez e mostrando uma fenomenal consistência em todos os clubes que tem treinador, o antigo médio natural de Santa Maria da Feira necessitava de um novo desafio na carreira, como foi o Vitória, mas mostra-se plenamente preparado para se encarregar de liderar um grande do futebol português, com o FC Porto a ser o clube que, aparentemente, melhor se conectaria com as suas ideias: além de ter uma extrema cultura tática, é um homem que percebe que o futebol não acaba nas linhas laterais e de fundo, interessando-se de forma acentuada pelos adeptos e comunidade envolvente ao clube. Com uma escolha tão evidente mesmo à frente dos olhos, a opção por Sérgio Conceição acaba por levantar alguns 'porquês'. E, embora numa época menos boa, Pedro Martins foi adjunto de José Couceiro no FC Porto em 2005, sendo também um homem que conhece os cantos à casa.

     Numa altura em que só falta a oficialização do FC Porto e pouco mais, Sérgio Conceição tem uma missão espinhosa como novo técnico dos azuis e brancos. Terá a missão não de ressuscitar, mas de ajudar a reerguer um gigante do futebol português cujo orgulho tem sido repetidamente ferido nos últimos anos. Na opinião da Crónica Futebolística, Sérgio Conceição não é a opção mais indicada para o comando técnico do FC Porto.

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     Porquê a insistência do futebol português e de larga maioria dos seus seguidores - em todos os meios de comunicação que o envolvem, desde a imprensa física e digital à mais banal e casual conversa de tasca - em mediatizar quem mais fala e, muitas vezes, menos faz? Tal é esta obsessão com o protagonismo fácil que, infelizmente, se regista um claro défice de páginas de jornais e discussões de café sobre aqueles que verdadeiramente merecem ser referenciados por bons motivos. Por outras palavras, e de forma muito mais direta: 

➤ Porquê a clara e incompreensível falta de destaque dada a Jorge Simão até à sua oficialização como novo treinador do Sporting Clube de Braga?

     O agora técnico do Sporting de Braga não procura protagonismo fácil por ter uma personalidade extravagante ou por declarações polémicas. Antes pelo contrário, o antigo técnico do Grupo Desportivo de Chaves limita-se a fazer - e muito bem, é preciso referir - o seu trabalho. Infelizmente, em Portugal, isso parece não ser o suficiente para despertar o interesse sobre uma determinada figura. Não que seja propriamente uma surpresa, num país onde se debatem as mesmas atrocidades há anos sem fim. De facto, falam-se de mais dos assuntos que se devem enterrar e, devido a essa mesma monopolização de tópicos, quem verdadeiramente merece não tem sequer, por vezes, uma menção honrosa

     Antes de mais, afirmar que esta é uma generalização e, felizmente, não corresponde a um todo. Existem meios de comunicação que de forma justa e contrária aos assuntos mais mediáticos do momento continuam a promover o bom futebol e os protagonistas que merecem realmente as palavras de apreço. O problema é que, muitas vezes, essa minoria padece perante os temas habituais e há muito monótonos que cobrem a atualidade do nosso futebol. Portanto coloca-se a questão: basta ser competente para ser reconhecido no futebol português?
  ➔ Em 2014/2015 venceu 14 jogos em 23 partidas no Campeonato Nacional de Séniores pelo Mafra e deixou a formação verde e amarela em zona de playoff na fase de subida, onde António Pereira iria depois vencer essa mesma zona de subida e catapultar a equipa do distrito de Lisboa para a Segunda Liga;

  ➔ Na mesma temporada iria assumir o comando técnico do Belenenses depois do afastamento de Lito Vidigal (visto ter sido adjunto dos azuis do Restelo nas duas épocas anteriores), carimbando o acesso da formação lisboeta à 3ª pré-eliminatória da Liga Europa. De referir que em 9 jornadas, e tendo assumido o comando técnico em meados de março, uma altura extremamente complicada na época, 3 vitórias, 3 empates e 3 derrotas foram suficientes para o histórico emblema de Lisboa carimbar o acesso ao futebol europeu. Quando foi anunciado como técnico do Belenenses a equipa não se encontrava nesta mesma zona europeia. O projeto do 'Belém' iria seguir com Ricardo Sá Pinto ao leme, onde o Restelo acabou por receber equipas como a Fiorentina na fase de grupos da Liga Europa. O futuro de Jorge Simão iria, apesar da grande prestação que antecedeu a campanha europeia do Belenenses, passar pelo Paços de Ferreira, onde o jovem técnico português se mostrou igualmente num grande nível. E pese embora o Belenenses tenha disputado cerca de 3/4 dos jogos do campeonato com Lito Vidigal ao leme - numa temporada marcada pelos problemas com a direção - Jorge Simão não foi recompensado com suficiente mérito, depois da belíssima reta final do campeonato que executuou, vindo do CNS, sem qualquer experiência como treinador principal na primeira divisão. 

     Durante esta fantástica época que o viu não só ser a peça chave para a subida de divisão do Mafra, mas também um dos pilares para o acesso europeu do Belenenses, Jorge Simão não levantou ondas: limitando-se a fazer o seu trabalho e com um travo de excelência, tal foi o seu registo em 2014/2015, uma cobertura muito limitada às suas conquistas foi o melhor que conseguiu, apesar do seu claro sucesso - quer no 3º, quer no 1º escalão do futebol português. E porque não foi o técnico destacado com maior regularidade pela imprensa e pelos ávidos seguidores do nosso futebol? Por manter uma postura serena e competente? Por não associar a sua pessoa a declarações polémicas e que pudessem ter prejudicado o rendimento do seu grupo de trabalho? Ou, talvez, por se concentrar exclusivamente em trabalhar em prol da sua equipa dentro e fora de campo, mantendo uma postura exemplar dentro das 4 linhas e na sala de imprensa? É de lamentar que figuras como esta sejam relegadas para planos secundários numa realidade jornalística - de realçar, novamente, que esta é uma generalização - em detrimento de figuras que, por fazerem mais ruído ou por terem um discurso que gera maior tráfego mediático, fazem manchetes numa base diária.

     A verdade é que com mais ou menos mediatismo o agora treinador do SC Braga deu continuidade ao seu excelente trabalho no principal escalão do futebol português com uma campanha categórica no Paços de Ferreira, onde terminou no 7º lugar e foi um substituto à altura de Paulo Fonseca. De resto, é necessário salientar que cumpriu o seu objetivo primordial nos castores e, não só superou o registo do seu antecessor, como acabou o campeonato com os auri-verdes a 1 ponto da zona europeia que, se bem se recorda, acabou por ficar em nome do Arouca de Lito Vidigal.

E porque é que Jorge Simão cumpriu o objetivo traçado na capital do móvel?

     Para explicar de forma clara é necessário analisar o discurso de uma parte considerável dos treinadores nos campeonatos profissionais de Portugal: o "jogo a jogo", "um jogo de cada vez" e "o próximo jogo é o mais importante da época". Embora sejam pontos de vista aceitáveis, muitas vezes com um fundamento admirável, é de salientar o afastamento de Jorge Simão dessa filosofia carpe diem, sendo ele um técnico que privilegia a big picture ou, em termos mais claros, a classificação final. É notório o seu interesse pela maratona e não pelo sprint. Para isso, o técnico de 40 anos mostra a sua ambição ao definir metas pontuais, tendo sido esse um dos principais pontos de destaque na sua primeira intervenção oficial como técnico do Sporting de Braga. E tudo começou na formação pacense quando definiu um objetivo muito simples para a sua equipa, objetivo esse que acabaria por cumprir: fazer 48 pontos, superando os 47 de Paulo Fonseca na época passada. Isto, de forma sintetizada, porque procurava fazer uma época melhor que a anterior, nem que a diferença fosse a de um simples ponto. E não interessava ter 10, 20 ou 30 no fim da primeira volta. O importante era, feitas as contas das 34 jornadas, o Paços de Ferreira somar 48 pontos. Uma derrota inesperada em terreno caseiro frente ao Tondela impediu a Europa de se tornar uma realidade para a formação de Jorge Simão na penúltima jornada, mas a meta pontual seria atingida na 32ª jornada.

     Bruno Moreira, com 14 golos, acabaria por ser o melhor marcador dos castores e um dos principais pilares para a concretização de uma meta que não foi delineada a meio do campeonato ou no último terço. Jorge Simão e o seu grupo de trabalho cumpriram um objetivo que foi delineado desde o início do campeonato - já o dizia em agosto de 2015 - de forma cuidada, sem qualquer euforia sobre uma eventual qualificação europeia ou determinado posto na classificação. Sem levantar ondas, os pacenses melhoraram o registo de Paulo Fonseca em 2014/2015 com uma grande qualidade exibicional ao longo da Liga NOS. Uma pena, reitero, que não tenho sido atribuído o destaque merecido a uma época que, planeada meticulosamente, viu uma equipa comprometer-se a um objetivo durante toda uma temporada e, eventualmente, cumpri-lo com consistência e, em ocasiões, momentos de excelência.

➤ Traçar metas realistas, mas ambiciosas

     O Paços de Ferreira não foi o único clube onde Jorge Simão chegou e imediatamente traçou metas pontuais na qual se iria focar durante toda a temporada, encarando dessa forma o campeonato como um todo, uma maratona e nunca como uma corrida de 100 metros ou uma simples questão de "jogo a jogo", sem qualquer perspetiva para o futuro a médio-longo prazo. Com esta última filosofia, completamente oposta à de Jorge Simão, não existem quaisquer objetivos. Qual é a motivação que terá um atleta em entrar em campo num grupo de trabalho onde não há expectativas ou o delineamento de um alvo a ser atingido no fim da temporada? O atual treinador do Sporting de Braga ganha pontos neste campo por chegar aos clubes e delinear metas efetivas junto dos jogadores, fazendo com que o seu grupo de trabalho tenha uma razão para treinar no duro e, no fim-de-semana, dar um pique de aceleração extra no último lance do jogo para garantir os 3 pontos

     Depois de consumado o regresso dos valentes transmontanos à elite do futebol português, Jorge Simão foi o eleito para suceder a Vítor Oliveira no comando técnico dos flavienses e, tal como fez no seu clube anterior, traçou uma meta junto do grupo de trabalho. Desta feita não eram 48, mas sim 40 - registo pontual que, em 15/16, permitiu ao Vitória Sport Clube terminar na metade da tabela. E, de facto, Jorge Simão procurava estabilizar uma formação acabada de voltar à primeira divisão. O objetivo, caso cumprido na totalidade, era suficiente para fazer uma prova sem preocupações face à zona de despromoção. Embora difícil, o técnico considerou o objetivo possível. E, caso o treinador de 40 anos permanecesse no Desportivo, certamente iria cumprir os objetivos pontuais pela 2ª época consecutiva. Em 13 partidas realizadas pelos transmontanos realizou uns impressionantes 19 pontos, deixando a equipa agora orientada por Ricardo Soares num notável 7º lugar. Tendo recebido e vencido o Moreirense no seu último jogo como treinador do Chaves para o campeonato, a sua prestação fantástica no clube recém promovido na Liga NOS terminou com apenas 2 derrotas em 13 jogos. E certamente um relativo sentimento agridoce, devido à aparente facilidade com que os flavienses iriam cumprir um objetivo, na teoria, de grau de dificuldade elevadíssimo. Só uma hecatombe na 2ª metade do campeonato iria impedir a equipa de alcançar a marca redonda dos 40 pontos.

    E se ainda haviam dúvidas sobre a real qualidade de Jorge Simão nos vários campos que compõem um treinador de qualidade - porque treinar não é só orientar os treinos e/ou dar instruções durante os jogos -, o técnico natural de Pampilhosa da Serra mostrou mais uma vez a sua habilidade, desta feita em Trás os Montes. E se a formação presidida por Bruno Carvalho regressou ao topo do futebol português com um bom plantel, esse mesmo grupo de trabalho foi potencializado de uma forma extremamente entusiasmante por Jorge Simão que conciliou algo que poucos treinadores - mesmo incluindo os grandes do futebol português - conseguem fazer na Primeira Liga: ganhar e jogar bem. E a chave passou pelo equilíbrio da equipa já que não tendo uma estrutura atacante propriamente prolífera (13 golos marcados nos 13 jogos de Jorge Simão), os transmontanos vão-se apresentando como uma das formações mais sólidas, defensivamente falando, do campeonato. Antes do jogo no Dragão, onde já não se encontrava Jorge Simão no banco, o Chaves tinha sofrido apenas 11 golos em 13 partidas. Só Benfica, Porto e Braga têm menos golos sofridos que os flavienses, numa temporada que acaba por ganhar outro brilho face à eliminação dos dragões na Taça de Portugal que foi um dos raros momentos nesta temporada onde o Chaves e Jorge Simão foram realmente recompensados com o devido destaque. Dentro dos possíveis, claro está.

➤ Lufada de ar fresco no futebol português

     Face ao despedimento de José Peseiro, o presidente do Sporting de Braga teve que agir rapidamente para arranjar um substituto para o clube minhoto e é de realçar a sua excelente decisão. Se considerarmos que o Vitória SC está no lugar onde merece estar no campeonato português, a lutar por um lugar europeu, e que a época passada foi um caso isolado, o Chaves é definitivamente a principal surpresa do futebol português na presente temporada e António Salvador deve a capacidade de reconhecer em Jorge Simão o talento necessário para liderar um plantel muito mais capaz do que aquilo que produziu até esta fase da temporada, apesar de no momento em que este é lançado estar a ocupar o pódio do campeonato. E se é verdade que o Gverreiros do Minho têm sido casa para alguns dos treinadores portugueses mais sucedidos da atualidade nos últimos anos, só quem não conhece o trabalho de Jorge Simão pode acreditar que, dentro de um menor ou maior período de tempo, também será ele um dos técnicos portugueses mais bem sucedidos.

     O discurso realista, honesto, genuíno e convicto de Jorge Simão é uma verdadeira lufada de ar fresco no futebol português. Como em tudo na vida é necessária, dentro de uma estrutura, a existência de um líder com uma convicção que faça com que (neste caso os adeptos, plantel, equipa técnica e direção) as suas palavras sejam encaradas com seriedade e veracidade. A primeira intervenção do técnico do Sporting Clube de Braga é, fora dos relvados, um dos momentos altos da época desportiva em Portugal até ao momento. E, para variar a tendência no nosso futebol, pelos melhores motivos.

     "Sou muito convicto, realmente, naquilo que posso fazer e acho que isso é uma das coisas que me fez ter este trajeto e estar aqui."

     Como fez em Paços de Ferreira e em Chaves, Jorge Simão não deixou de traçar um objetivo pontual para o Sporting Clube de Braga. Desta feita são uns ambiciosos 65 pontos, mais 7 do que fez Paulo Fonseca pelos bracarenses na época passada (e, curiosamente, esta é a segunda ocasião onde Simão treina uma equipa que na temporada anterior esteve ao cargo de Paulo Fonseca). Classificando o técnico como o ponto fundamental na sua intervenção, esse traçar de um objetivo com os jogadores, os protagonistas dentro de campo, acaba por se tornar numa das imagens de marca de Jorge Simão durante a sua carreira no campeonato português, algo que mostra uma seriedade quase única no nosso futebol pela forma como anuncia o próprio objetivo. É igualmente uma lufada de ar fresco no futebol português observar um treinador a não desperdiçar as suas palavras com falsas modéstias e a afastar totalmente o mérito da sua figura. Jorge Simão reconhece o seu talento e capacidades enquanto líder e também passa muito por aí a sua confiança em traçar metas para o final da época. Mostra que, de uma maneira ou de outra, está confiante no seu grupo de trabalho e no trabalho que é realmente capaz de fazer, podendo ultimamente concretizar esses objetivos. Um técnico que não seja confiante e esteja convicto daquilo que pode realmente realizar com um determinado grupo de jogadores naturalmente não poderá traçar metas porque, talvez, nem ele acredita que elas sejam possíveis de alcançar.

     Tendo encarado a sua primeira intervenção como técnico do Sporting de Braga e as posteriores questões dos jornalistas com uma enorme frontalidade e genuinidade, um palco maior parece enquadrar-se perfeitamente como o habitat de Jorge Simão que pode ter finalmente condições perfeitas - não que não o tivesse nos outros clubes, mas com um palco maior vêm outros recursos para trabalhar - para se tornar a revelação do futebol português em termos técnicos, englobando não só para essa distinção os seus resultados desportivos (que nunca deixou de cumprir em Belém, Paços de Ferreira ou Chaves) mas como a sua postura única no futebol português, que faz dele um exemplo em como se expressar no futebol e uma figura a reter para as próximas épocas por essas mesmas razões. Será 2017 o ano em que a comunicação social desportiva nacional irá finalmente acordar e perceber a verdadeira pérola que tem em Jorge Simão?

"Não tenho a coragem de estar no terceiro lugar e dizer que vou lutar pelo quarto."
- Jorge Simão, 20 de dezembro de 2016


Luís Barreira,
Crónica Futebolística





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     Se for adepto do Championship, um dos campeonatos mais competitivos do futebol mundial, é bem provável que se depare, pelo menos, com um jogador escandinavo em cada partida que assistir. Na verdade, das 24 equipas que constituem o segundo escalão do futebol inglês, 17 formações têm um jogador nórdico no seu plantel, seja ele preponderante para a equipa, uma jovem promessa ou um jogador utilizado primordialmente na equipa de reservas, seja para recuperar de lesão ou ambientar-se ao futebol britânico. Independentemente da sua utilização dentro da equipa que represente, e somando o total das 24 equipas presentes no EFL Championship, regista-se um bizarro número de 32 nórdicos, com uma média de 1,33 por equipa. Na Premier League o número total fica nos 13. Porquê a tamanha afluência de jogadores finlandeses, dinamarqueses, noruegueses, suecos e islandeses no segundo escalão do futebol inglês? 

A Crónica Futebolística, nesta peça de Luís Barreira, irá expor alguns fatores que ajudam a compreender e assimilar os factos acima escritos de forma clara.

**A ter em conta que neste artigo é utilizado o termo mais amplo de "Escandinávia", incluindo a Finlândia, Islândia e, embora não tenha qualquer representante, as Ilhas Faroé.

     Embora os estereótipos que por tanto tempo circundaram o típico jogador nórdico estejam a dissipar-se de forma lenta, mas gradual, existe uma ideia base daquele que é o jogador escandinavo: louro, alto, fisicamente imponente e tecnicamente débil. E o rótulo mais fácil de desmentir, destes 4 mencionados, é sem dúvida o último. Mas, claro há exceções. Nem todos são louros, também. É preciso ter, em primeiro lugar e antes de tudo, uma ideia base de como funcionam os campeonatos escandinavos e onde se situam em termos de qualidade e mediatismo.

     Como é provavelmente do conhecimento geral, os campeonatos nórdicos não estão em par com as competições de 1ª e 2ª linha do futebol europeu (entenda-se por 1ª linha o campeonato espanhol, inglês, alemão, italiano e apesar dos fracos rendimentos europeus a própria liga francesa, com a 2ª linha encabeçada pelos campeonatos de Portugal, Holanda ou Rússia). Claro, necessário referir que não o estão porque, além de não terem qualidade para competir com a elite do futebol europeu, não têm os recursos financeiros nem o prestígio internacional para tal. Porém, como é apanágio da cultura escandinava, os recursos existentes são aproveitados das formas mais rentáveis, quer para consumo interno quer na promoção do atleta da casa, como mostra a migração de jogadores para o Championship.

     Embora não tenham níveis de futebol ou assistências como os tubarões da Europa, é necessário salientar que os campeonatos nórdicos (nomeadamente Dinamarca e Suécia, em maior nível) são erradamente vulgarizados e muitas vezes inferiorizados em relação à sua real qualidade, certamente respeitável. Essa subvalorização das ligas, das suas equipas e atletas constitui um dos pontos mais importantes desta peça que será explorado mais à frente. A exploração - ou falta dela, neste caso - por parte de (ainda mais) poderosos mercados europeus faz com que as equipas do Championship tenham via verde para explorar não só o talento que cresce nos próprios países nórdicos, mas também adquirir as suas maiores promessas espalhadas pelo futebol europeu. Juntando a já referida subvalorização das competições à falta de exploração e atenção de grande parte da Europa do futebol face ao produto escandinavo, juntam-se todas as condições e mais algumas para parte do talento incorporado rumar, justamente, a Inglaterra.

     ➦ BAIXOS VALORES DE MERCADO

          Tão simples quanto a lei da oferta e da procura. Se há pouca oferta e muita procura, os preços são naturalmente inflacionados. Se a situação se inverte e a oferta é maior do que a procura, naturalmente o valor de mercado irá cair, favorecendo eventualmente o comprador. Esta, juntando à subvalorização dos campeonatos escandinavos e ao impressionante poderio financeiro da maior parte das equipas do Championship, é uma das melhores formas de ilustrar a posição do mercado escandinavo face, neste caso em particular, ao 2º escalão do futebol inglês. Com esta tendência a dissipar-se cada vez mais e o futebolista nórdico a ser cada vez mais valorizado, ainda existe uma lacuna considerável entre a oferta. Clubes como o Midtjylland, Brondby ou mesmo o Copenhaga - utilizado o caso da Superliga dinamarquesa - têm de, ocasionalmente, vender os seus maiores e mais valiosos talentos para se conseguirem sustentar financeiramente de forma mais tranquila. Muitas vezes com uma observação deficitária tendo em conta o talento existente no país em questão, o destino destes mesmos jogadores cada vez mais parece passar por Inglaterra e, face à falta de competitividade no mercado, a preços relativamente acessíveis. E porquê Inglaterra? O que nos leva ao segundo ponto.

     Embora o seu destino não passe por Inglaterra, a transferência de Thomas Delaney do Copenhaga para o Werder Bremen ilustra muito bem este ponto. Com 25 anos, o atual capitão, motor do meio-campo e fonte de carisma dos dinamarqueses - e cada vez da seleção, onde é presença incontestável - irá rumar ao futebol alemão pela mera quantia de 2 milhões de euros. E valor classificado por "mera quantia" devido ao seu talento e versatilidade notáveis, sendo que num campeonato ou equipa de maior prestígio o valor acima não constituiria, muito provavelmente, nem metade do montante da sua transferência.

     ➦ SEMELHANÇAS NO ESTILO DE JOGO

     Como já foi referido acima, o típico futebolista nórdico continua a evoluir em termos técnicos, com o caso mais evidente a surgir com a Islândia no EURO 2016. Apesar de ser uma equipa que recaia bastante no jogo aéreo e nos aspetos físicos do jogo, a formação de Lars Lägerback demonstrou uma impressionante fasquia técnica quando necessitou. O mesmo vai acontecendo um pouco por todos os países da Escandinávia, com jogadores - especialmente médios de características ofensivas - tecnicamente dotados. Apesar disso, os seus princípios mais primitivos continuam lá: a estatura, a presença física e a facilidade por vezes estonteante no jogo aéreo. E a verdade é que, de todos os campeonatos a nível mundial, existem poucos que requerem tamanha fisicalidade - seja no chão ou no ar - como o Championship.

     É elementar concluir, então, que se torne natural que um jogador escandinavo que reúna estas características se sinta na sua zona de conforto: o jogo aéreo, a presença física e a resistência são dos aspetos mais importantes para qualquer jogador do Championship e com um mercado amplo como o nórdico estranho seria as formações inglesas não tirarem proveito de jogadores que, com um valor de mercado relativamente acessível para o seu orçamento, cumpram com nota alta os pré-requisitos para atuar numa competição tão desgastante e exigente. Entre os mais de 30 jogadores escandinavos presentes neste campeonato, existem os que possuem uma qualidade técnica acima da média e, quando juntam essa mesma perícia ao seu porte físico, acabam por se tornar em verdadeiras referências. Veja-se, por exemplo, Stefan Johansen, médio norueguês do Fulham.

     ➦  ÖDEGAARD E A BUSCA PELO PRÓXIMO MENINO DE OURO

     Com o enorme Jussi Jääskelainen a representar o Wigan aos 41 anos, existem 5 jogadores com idades compreendidas entre os 17 e 21 anos a representar formações no Championship, seja pela equipa principal ou pela formação de reservas. Com o aparecimento e explosão de Martin Ödegaard em termos mediáticos antes e durante a sua chegada ao Real Madrid, o mercado nórdico sofreu um dos piques na sua popularidade no que aos últimos anos diz respeito, com os departamentos de observação de dezenas de clubes europeus a procurar a próxima pérola norueguesa ou, mais amplamente, escandinava. O caso mais evidente é o de Martin Samuelsen: tendo iniciado o seu percurso no futebol inglês em 2012, com 15 anos, o jovem de 19 pertence atualmente aos quadros do West Ham (pelo qual já jogou na Liga Europa) e está emprestado ao Blackburn Rovers, onde ainda procura um lugar no onze. Internacional norueguês desde o passado mês de março, Samuelsen teve inúmeros holofotes sobre si depois do aparecimento do seu compatriota no mundo do futebol, mas ainda não conseguiu capitalizar.

     A relevância dada a Ödegaard abriu portas a que, num raro período, toda a Europa do futebol se virasse à Escandinávia em busca do próximo menino de ouro. E para o Championship não foi diferente, sendo o jogador do Real Madrid um dos principais impulsionadores para que, ainda que talvez por um período demasiado breve, se observasse com maior atenção o mercado nórdico.

     ➦  RASMUS ANKERSEN, "THE GOLD MINE EFFECT"

     Autor de vários livros e considerado expert em alta performance no que ao futebol diz respeito, o dinamarquês Rasmus Ankersen é, aos 33 anos, presidente do Midtjylland e um dos diretores do futebol do Brentford FC. Apontando a este último cargo no verão de 2015, o antigo capitão dos sub-19 da equipa que agora preside (uma lesão terminou a sua carreira prematuramente) foi a principal influência para as contratações dos dinamarqueses Lasse Vibe e Andreas Bjelland por parte do Brentford no mesmo verão do ano passado. Embora este último vá vendo o seu tempo em Inglaterra marcado por problemas físicos, Lasse Vibe deu continuidade ao seu grande momento de forma pelo Gotemburgo, impressionando de forma gradual pelos ingleses. Apesar do sucesso como extremo, várias lesões no ataque fizeram com que tivesse de assumir o lugar de ponta-de-lança, onde sofreu muito pelo seu isolamento no terreno durante parte considerável da temporada. Ainda assim, sem lesões, Vibe carimbou exibições de enorme classe e terminou a temporada com 14 golos no Championship.

     Aparecendo tarde na ribalta (atualmente com 29 anos), a contratação e consequente prestação de Vibe no futebol inglês despertou muitos olhos de responsáveis do Championship ao mercado nórdico, quebrando de certo modo o estigma de que os avançados - neste caso dinamarqueses - nórdicos se baseiam na sua estatura, força e jogo aéreo para singrar no mundo do futebol. Extremamente ágil, rápido e brilhante com a bola nos pés, a contratação escolhida a dedo por Rasmus Ankersen ganhou muitos adeptos no Championship e consciencializou responsáveis do campeonato a apostar no mercado nórdico. O diretor técnico do Brentford é hoje considerado como uma das mentes mais promissoras do futebol por tudo aquilo que já alcançou aos 33 anos e pela sua perspetiva única sobre o desporto, como bem indicam as suas obras.

     ➦  TRADIÇÃO E HISTÓRIA NA PREMIER LEAGUE

     Com nomes como Christian Eriksen, Kasper Schmeichel, Gylfi Sigurdsson ou Jonas Olsson a cimentarem o seu estatuto na Premier League, cada um de forma diferente, as prestações destes e de antigos jogadores escandinavos na Premier League transmite uma determinada confiança e viabilidade às eventuais contratações por parte de equipas do Championship, quando visando o mercado nórdico. Embora o sucesso de uns não signifique o sucesso automático de outros (e nem todos os jogadores nórdicos no Championship vivem dias fáceis), a história destes jogadores na Premier League é certamente um ponto positivo.

     Figuras como Peter Schmeichel, Tore André Flo, Morten Pedersen, Fredrik Ljunberg, Olof Mellberg, Daniel Agger ou Thomas Sorensen marcaram gerações nos seus respetivos clubes (uns mais do que os outros, claro) e o sucesso destes e outros jogadores na Premier League é não só um ponto positivo, mas como também um ponto de referência às formações do Championship que procuram uma referência a médio-longo prazo. E não haverá melhor exemplo de que Aron Gunnarsson: o capitão islandês representa o Cardiff com unhas e dentes desde 2011, sendo ele um dos mais contagiantes e carismáticos líderes do Championship dentro de campo.

     ➦  FRIO, PRÁTICO E EFICAZ

     Juntando um pouco de tudo o que já se disse na peça, as contratações de jogadores nórdicos por parte de equipas do EFL Championship revelam-se extremamente práticas e eficazes na maior parte das ocasiões, com as equipas a não ter que abrir tanto os cordões à bolsa em comparação com um eventual investimento noutros mercados, mais explorados e reconhecidos a nível mundial. Juntando-se o útil ao agradável, estas contratações acabam por ser viáveis porque à partida, os clubes sabem o que estão a comprar: um jogador que, dadas as suas características, se adequa de forma ideal ao campeonato onde irá atuar. 

     A frieza, durabilidade e físico do jogador nórdico acaba por ser na maior parte das ocasiões o critério formado para contratar determinado atleta - com jogadores como Lasse Vibe a serem exceções. Num lote em que a figura mais facilmente reconhecível acaba por ser Nicklas Bendtner (que, tal como o próprio Nottingham, está a crescer), o Championship tem um elenco de luxo no que à Escandinávia diz respeito. E uma coisa é certa: estão no sítio certo. 

Luís Barreira,
Crónica Futebolística